Portanto, que continua a ser fortemente realimentada na atualidade,

 

Portanto,
o desenvolvimento do colonialismo europeu – e das conversões, junto à
implantação das hierarquias étnicas e do capitalismo atrelados – se realizava a
partir do século XV, no continente africano, e depois o asiático, até ser
propagado às Américas. Através das bulas Romanus
Pontifex (1455) e Inter caetera
(1456), é dado ao grão-mestre da Ordem de Cristo, naquele momento o tio do rei
Afonso V, infante dom Henrique, em todos seus territórios conquistados entre ao
Sul do cabo Bojador até as Índias, no presente e no futuro, a jurisdição
espiritual, os poderes para nomeação de titulares dos cleros secular e regular,
poder de censura e penas eclesiásticas e poder de bispo nesta jurisdição
(ibid., p. 39). São terras declaradas nullis
diocesis – sem nenhuma diocese -, e que encontradas, então, seriam de
domínio português outorgado pelo papa.

Seria
pouco reflexivo, no entanto, pensar que por essas atribuições os portugueses
tiveram de fato o poder quase absoluto referido nas bulas sobre as sociedades
que encontravam, e que essas não teriam suas próprias reações. Poderiam ser
terras sem dioceses, mas isso não significava que não possuíam outras
instituições sociais e religiosas ou estavam que passivamente à espera da
tomada de poder por europeus. Porém, medidas como essa contribuíram para a
construção do sentimento, em âmbitos culturais, políticos e religiosos, de
superioridade portuguesa/europeia/cristã em relação a demais populações. No
contexto de séculos XV e XVI, tempo de início da expansão europeia aos demais
continentes, inicia-se a diferença colonial. Essa diferença, segundo Mignolo (2003) constrói geopolíticas de
conhecimento e poder; hierárquicas, e de continuidade histórica até o presente.

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Esse
período no qual é percebido como fundador da Modernidade, é precursor também da globalização, quando os
diferentes sistemas-mundo de trocas
políticas e econômicas existentes até então na América, Ásia, África e Europa
entram em ampliado contato.1
A própria definição de Europa se constituiu a partir da diferença colonial e de sua colonialidade do poder (MIGNOLO, 2005,
p. 35-36), ao se deparar através do Atlântico e do Índico com outros povos e
hierarquizá-los. Ao se deparar com o
outro, nas experiências dos três continentes, o europeu constituiu sua
própria imagem, em reflexo e contraposição ao que via, como que para afirmar
sua superioridade, já que essa relação de polaridade entre dois hemisférios,
que continua a ser fortemente realimentada na atualidade, é de poder.

Como
traça Edward Said, teórico literário palestino ao apontar as noções de Ocidente
e Oriente como sócio-historicamente construídas, há um estabelecido “poder
europeu-atlântico sobre o Oriente” (SAID, 2011, p. 33). O autor coloca que há “força
consolidada do discurso orientalista, seus laços muito próximos com as
instituições de poder político e socioeconômico, e sua persistência é
formidável” (idem). Com o termo orientalista, Said deseja evidenciar a construção dessa noção de
superioridade europeia, que se dá historicamente em contraposição a um imaginado
Oriente, uma vez que

1                      Sob a ótica de alguns estudiosos,
como Immanuel Wallerstein ao abordar a expansão portuguesa dos séculos XV e XVI
e suas consequências (2002). 

Portanto,
o desenvolvimento do colonialismo europeu – e das conversões, junto à
implantação das hierarquias étnicas e do capitalismo atrelados – se realizava a
partir do século XV, no continente africano, e depois o asiático, até ser
propagado às Américas. Através das bulas Romanus
Pontifex (1455) e Inter caetera
(1456), é dado ao grão-mestre da Ordem de Cristo, naquele momento o tio do rei
Afonso V, infante dom Henrique, em todos seus territórios conquistados entre ao
Sul do cabo Bojador até as Índias, no presente e no futuro, a jurisdição
espiritual, os poderes para nomeação de titulares dos cleros secular e regular,
poder de censura e penas eclesiásticas e poder de bispo nesta jurisdição
(ibid., p. 39). São terras declaradas nullis
diocesis – sem nenhuma diocese -, e que encontradas, então, seriam de
domínio português outorgado pelo papa.

Seria
pouco reflexivo, no entanto, pensar que por essas atribuições os portugueses
tiveram de fato o poder quase absoluto referido nas bulas sobre as sociedades
que encontravam, e que essas não teriam suas próprias reações. Poderiam ser
terras sem dioceses, mas isso não significava que não possuíam outras
instituições sociais e religiosas ou estavam que passivamente à espera da
tomada de poder por europeus. Porém, medidas como essa contribuíram para a
construção do sentimento, em âmbitos culturais, políticos e religiosos, de
superioridade portuguesa/europeia/cristã em relação a demais populações. No
contexto de séculos XV e XVI, tempo de início da expansão europeia aos demais
continentes, inicia-se a diferença colonial. Essa diferença, segundo Mignolo (2003) constrói geopolíticas de
conhecimento e poder; hierárquicas, e de continuidade histórica até o presente.

Esse
período no qual é percebido como fundador da Modernidade, é precursor também da globalização, quando os
diferentes sistemas-mundo de trocas
políticas e econômicas existentes até então na América, Ásia, África e Europa
entram em ampliado contato.1
A própria definição de Europa se constituiu a partir da diferença colonial e de sua colonialidade do poder (MIGNOLO, 2005,
p. 35-36), ao se deparar através do Atlântico e do Índico com outros povos e
hierarquizá-los. Ao se deparar com o
outro, nas experiências dos três continentes, o europeu constituiu sua
própria imagem, em reflexo e contraposição ao que via, como que para afirmar
sua superioridade, já que essa relação de polaridade entre dois hemisférios,
que continua a ser fortemente realimentada na atualidade, é de poder.

Como
traça Edward Said, teórico literário palestino ao apontar as noções de Ocidente
e Oriente como sócio-historicamente construídas, há um estabelecido “poder
europeu-atlântico sobre o Oriente” (SAID, 2011, p. 33). O autor coloca que há “força
consolidada do discurso orientalista, seus laços muito próximos com as
instituições de poder político e socioeconômico, e sua persistência é
formidável” (idem). Com o termo orientalista, Said deseja evidenciar a construção dessa noção de
superioridade europeia, que se dá historicamente em contraposição a um imaginado
Oriente, uma vez que

1                      Sob a ótica de alguns estudiosos,
como Immanuel Wallerstein ao abordar a expansão portuguesa dos séculos XV e XVI
e suas consequências (2002).